Países da América Latina e do mundo celebram os 80 anos do nascimento do guerrilheiro Ernesto Guevara (1928-67), médico argentino que recebeu no México, do grupo do cubano Fidel Castro, o apelido de Che. A data oficial, neste sábado, é celebrada especialmente na Argentina --onde ele nasceu-- e em Cuba, onde participou da revolução que, em 1959, derrubou o ditador Fulgêncio Batista, ajudando a instaurar o socialismo na ilha.Batizado de Ernesto Guevara Lynch de la Serna, Che nasceu em 14 de maio de 1928 em Rosário, na Argentina, mas sua certidão de nascimento é do dia 14 de junho do mesmo ano.Reprodução
Na Argentina ocorrem, entre diversas atividades, um encontro internacional de jovens e outro de centrais sindicais. O centro das comemorações será em Rosário, onde será inaugurado um monumento de Che.

Em Cuba, artistas e intelectuais de diversos países foram convidados para contribuir com sua produção ao Centro de Estudos Che Guevara, que irá publicar em um site ( http://www.che80.co.cu/ ) trabalhos para expressar "a dimensão contemporânea e viva dessa figura universal, que continua a servir de exemplo de luta por justiça e igualdade". A trajetória de Che atesta a profundidade de sua experiência não apenas "revolucionária", "socialista" e "guerrilheira", mas também como um homem generoso, pelo que fez, e pelo que renunciou. "O verdadeiro revolucionário é guiado por sentimentos de generosidade", dizia ele."Pátria ou morte"Com todas as guerrilhas que travou, Che convivia com a "sombra" de sua morte a todo momento. Na época em que viajou pelo mundo como embaixador da Revolução Cubana, ele discursou na sede da ONU, em dezembro de 1964, onde anunciou seu próprio "obituário"."
Estaria disposto a entregar minha vida pela libertação de qualquer país latino-americano sem pedir nada a ninguém, sem exigir nada, sem explorar ninguém", afirmou o guerrilheiro.
"Um dia perguntaram a quem se devia avisar em caso de morte, e a possibilidade chocou a todos. Depois, percebemos que estava correto, que em uma revolução, ou se vence, ou se morre". Che escreveu ainda que "outras terras do mundo reclamavam o concurso" de seus "modestos esforços".
E finalmente, deixou um recado que resumia o pensamento que havia desenvolvido durante os anos em que foi chefe do departamento industrial do Instituto Nacional da Reforma Agrária, presidente do Banco Nacional de Cuba e ministro da Indústria. "Não deixo para meus filhos e para minha mulher nada material, e não lamento por isso: alegro-me que assim seja. Não peço nada para eles, pois o Estado lhes dará o suficiente para viverem e se educarem".
Mais uma vez, Che renunciava à possibilidade de ter uma vida estável, deixando a mulher e os filhos pequenos. Ele renunciou ao posto de comandante de uma revolução, onde foi recebido como herói e era admirado por sua humildade pelo "povo", já que trabalhava em atividades como o corte da cana lado a lado com os camponeses.
"Guerra de guerrilhas"
Em seguida, Che embrenhou-se na África e, ao lado de um grupo de guerrilheiros cubanos, uniu-se, em 1965, às forças de libertação do Congo no combate contra Mobutu, o ditador imposto pelas potências coloniais após o assassinato de Patrice Lumunba. Ele queria promover uma "guerra de guerrilhas" para começar a revolução no "continente esquecido".
No outono de 1966, ele chegou ao Departamento de Santa Cruz, novamente ao lado do comando de guerrilheiros cubanos.Em outubro de 1967, o acampamento onde a guerrilha dava seus primeiros passos de treinamento e organização, foi cercado pelo Exército boliviano. Che foi capturado e executado. Ironicamente, neste momento ele não achou que seria morto. O guerrilheiro chegou a perguntar ao capitão Gueri Prado em que jurisdição da Bolívia seria julgado.
Horas depois, o capitão receberia a ordem do comando do governo da Bolívia para matá-lo.
O prognóstico de Che mostrou-se correto: ou ele triunfaria ou seria morto. "Não há fronteiras nesta luta, nem vamos permanecer indiferentes ao que ocorrer em qualquer parte do mundo. A nossa vitória ou a derrota de qualquer nação do mundo é a derrota de todos", disse Che.
Injustiças
Além do desejo de transformar a sociedade, Che parecia buscar sempre se transformar. "Esse vagar sem rumo pela nossa maiúscula América me transformou mais do que pude crer", escreveu ele em seu diário de viagem pela América Latina.
Quando voltou da viagem de motocicleta ao lado do amigo Alberto Granado pela América Latina, Che se formou em medicina e, após sua "aventura da juventude", poderia ter aspirado ser um médico bem-sucedido de classe média na Argentina. No entanto, ele renunciou à essa possiblidade, como faria muitas outras vezes no curso de seus 39 anos de vida."Muitos me chamarão de aventureiro, e o sou, mas de um tipo diferente, sou daqueles que põem a vida em jogo para demonstrar as suas verdades", afirmou o revolucionário.
"Acima de tudo, procurem sentir profundamente qualquer injustiça, cometida contra qualquer pessoa, em qualquer parte do mundo. É a mais bela qualidade de um revolucionário", dizia.
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